Uma esfera de luz sobe da serra, troca de cor no meio do ar e desaparece antes de alcançar o alto. Se você dirige à noite pelas estradas de Mucugê, é provável que já tenha visto a cena, ou que conheça alguém capaz de descrevê-la em detalhes. O clarão atravessa os relatos da Chapada Diamantina há mais de um século, e cada geração lhe deu um nome: sinal da Mãe do Ouro para o garimpeiro, disco voador para o ufólogo, relâmpago globular para o cientista.
Os primeiros clarões
Mucugê guarda alguns dos registros mais antigos da região. Foi ali que apareceram os primeiros diamantes da Chapada e, junto deles, as primeiras histórias sobre as luzes. O relato mais recuado remonta a 1882, quando o sertanista M. Freitas passou pela cidade e anotou o que viu no livro Estradas e Cardos. Ao se aproximar de Mucugê, descreveu um halo de luz multicor que subia sem parar, até sumir no escuro.
Com os anos, os avistamentos se multiplicaram, sobretudo na Serra do Capa Bode. Fazendeiros, caminhoneiros e viajantes da madrugada repetiam a mesma descrição de uma bola luminosa acompanhando os veículos pela estrada. Os relatos coincidiam a ponto de chamar a atenção da imprensa. Jornalistas como Ronaldo Ribeiro, o Jornal Nacional e até a revista National Geographic se interessaram pelo assunto.
A Mãe do Ouro
Durante muito tempo, o povo de Mucugê leu as luzes pela chave da lenda. Para o garimpeiro, o facho incandescente anunciava a Mãe do Ouro, entidade feminina que habita as serras, vira bola de fogo e protege os minérios escondidos no solo. A crença combinava com o ofício: quem cavava atrás de diamante convivia com a ideia de que o brilho no alto marcava a riqueza embaixo da terra.
A cidade dos discos voadores
A partir da década de 1990, o assunto trocou de dono. Ufólogos chegaram à cidade e reclassificaram os círculos brilhantes como OVNIs. Entre 1993 e 1994, a comoção tomou conta de Mucugê. Em várias noites, dezenas de moradores subiram a Serra do Capa Bode na esperança de flagrar as aparições, e a história ganhou espaço na imprensa de Salvador e além.
O episódio virou objeto de estudo. O artigo “Ufologia em Mucugê: a invenção de uma nova tradição” registrou um caso extremo: um morador, portador de cardiopatia, filmava as luzes quando morreu ali mesmo, apavorado. O susto fatal, conta o trabalho, veio dos faróis de um carro que dava ré, confundidos com a aproximação de um disco voador. O mesmo estudo relata que, em 2004, outro mucugeense afirmou ter tido uma filha com uma extraterrestre.
O que diz a ciência
A explicação mais recente troca o sobrenatural pela física. Ela associa as luzes ao relâmpago globular, um tipo raro e ainda mal compreendido de descarga elétrica. Quando um raio atinge o solo, parte da energia formaria uma esfera luminosa que sobe de volta ao ar. A bola assume um tom azul, branco ou amarelo, solta um chiado agudo e some em poucos segundos, deixando um brilho fluorescente. A descrição bate com o que os moradores de Mucugê contam há gerações.
Até hoje, ninguém conseguiu capturar uma dessas luzes para examinar de perto. Enquanto a física não fecha a conta, o garimpeiro segue apostando na Mãe do Ouro e o ufólogo, no disco voador. Se você cruzar Mucugê numa noite de céu limpo e vir o clarão subir da serra, já sabe: a resposta continua em disputa, e o palpite fica por sua conta.
Fontes: livros Abecedário de Personagens do Folclore Brasileiro, de Januária Cristina Alves, Estradas e Cardos, de M. Freitas; artigo “Ufologia em Mucugê: a invenção de uma nova tradição”, de acadêmicos do Curso de Letras da Universidade Católica de Salvador (orientação de Gildeci de Oliveira Leite).
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