BL G

Ribeirão do Meio, em Lençóis: como chegar, quanto dura a trilha e como aproveitar o escorregador com segurança

O tobogã natural fica a cerca de uma hora de caminhada do centro de Lençóis. Para ajudá-lo a visitar o local sem ter perrengues, o iChapada reuniu o caminho, os cuidados no poço e as opções de volta

O Ribeirão do Meio é um dos passeios mais divertidos de Lençóis. A cerca de uma hora de caminhada do centro da cidade, o rio desliza por um enorme lajedo de pedra polida e desaba num poço fundo de água cor de chá, e é nesse trecho que funciona o tobogã natural que dá fama ao lugar. A diversão, porém, cobra cuidados, sobretudo de quem chega ali pela primeira vez. De antemão, já pegue essa dica preciosa: você sobe o lajedo apenas pela faixa de rocha seca, à esquerda de quem olha de frente para a queda, porque a subida pelo molhado responde pela maior parte dos acidentes já registrados no local. Luiz Krug, guia de turismo veterano em Lençóis e autor de um livro sobre os passeios da cidade, registrou diversos acidentes nesse trecho: contusões, dentes quebrados, narizes partidos e mortes por afogamento. Por isso, cuidado.

Vencida a ressalva, o programa é dos mais tranquilos do município. O balneário se forma onde o lajedo inclinado, polido por séculos de água corrente, mergulha no poço cercado de pedras largas, boas para deitar e tomar sol. A cor escura da água vem da matéria orgânica da vegetação de altitude, e os moradores de Lençóis chamam o escorregador de Rala Bunda.

Como chegar ao Ribeirão do Meio

A trilha é larga, bem aberta pelo uso e não cobra experiência técnica. Ela começa nas imediações da Igreja do Rosário, na rua conhecida em Lençóis como Rua dos Negros, também identificada como Rua São Benedito. No fim dela você cruza o Córrego do Lava-Pé, onde os garimpeiros se lavavam antes de entrar na cidade, e enfrenta uma ladeira íngreme. Cerca de 200 metros depois do topo dessa ladeira aparecem uma área de estacionamento e a placa de indicação do caminho.

Daí em diante o piso é calçado de pedra, desce por uns 250 metros até o pequeno Córrego do Meio e torna a subir a mesma distância. Somando ida e volta, as agências de Lençóis calculam por volta de 8 quilômetros e meio dia de programação, com dois pontos de apoio ao longo do percurso.

O trecho plano da trilha é um aqueduto do garimpo

Depois da ladeira, o caminho segue plano por mais de 1 quilômetro, e essa horizontalidade tem explicação histórica: você caminha sobre um rego, aqueduto cavado à mão para conduzir a água do Rio Lençóis até os garimpos das cercanias do Ribeirão. Conta-se em Lençóis que a obra saiu das mãos de um homem escravizado, que apostou a própria liberdade na condição de levar a água do Serrano até lá, e venceu a aposta.

O efeito daquele desvio continua à vista de quem passa. A água do rego foi puxada em vários pontos para lavar a encosta de baixo, e por isso a ribanceira abaixo da trilha aparece inteiramente comida pelo garimpo, enquanto o terreno acima do caminho permanece intacto, já que água nenhuma sobe encosta.

Como escorregar no tobogã

Quem nunca desceu ali deve escorregar sentado, porque os malabaristas que deslizam de pé têm anos de intimidade com aquela pedra, e o mesmo tipo de exibição acontece em tobogãs naturais do mundo inteiro. Ao chegar embaixo, saia nadando ou caminhando pela borda, por dentro da água, até alcançar a parte seca, do contrário você será atropelado pelo próximo da fila.

Deslizar no escorregador do Ribeirão do Meio é divertido, mas requer cuidados. Foto: Lucas da Chapada

Por que ninguém deve pular no poço

Os acidentes mais sérios da região envolvem salto e mergulho de cabeça, inclusive lesões de coluna. O mecanismo se repete: sem conhecer a fundura, o banhista pula, se assusta com a possibilidade de tocar a rocha e dobra o corpo ainda em velocidade para voltar à superfície. Também não vale confiar na memória de outras temporadas, porque o leito muda. Já houve visitante que pulou num ponto seguro em determinado ano, voltou no seguinte certo do que sabia e encontrou o mesmo lugar raso, entupido pela areia de uma cheia. Os nativos pulam, é verdade, mas conhecem cada pedra submersa daquele poço, e conhecer o lugar tampouco basta, porque também é preciso saber pular.

Quando o passeio deve ser cancelado

Numa chuva comum, o nível do Ribeirão sobe 1 metro, talvez 2. Numa tempestade das grandes, sobe 5 metros ou mais, e como a escorregadeira funciona ali como garganta estreita, a força da massa de água que atravessa o canal se multiplica. Essa força arranca blocos de pedra do fundo do poço e os empurra rio abaixo, o que dá a medida do risco. Com o rio muito cheio, ou em dia de chuva forte na serra, remarque o programa para outra data.

O que resta para quem não quer escorregar

Ao redor do poço principal há remansos calmos para nadar e caldeirões laterais onde a correnteza produz hidromassagem, além das lajes de sempre para o sol. Do balneário se enxerga a Serra do Veneno, de onde parte a trilha da Cachoeira da Fumaça por baixo.

As pedras do poço e o mar que existiu ali

O Ribeirão nasce no alto da Serra do Sincorá, entre a serra de Lençóis e a planície da Cachoeira da Fumaça, e corre uns 8 quilômetros num vale de paredes íngremes até encontrar uma falha geológica. Pela fenda ele escapa do vale original, vira para leste e desce em cascatas, sendo a Cachoeira do Sossego a última dessas quedas. Por isso quem volta do Sossego a pé passa pelo Ribeirão de Cima e pelo do Meio.

Já no poço, procure o bloco enorme quase em pé do outro lado, atravessado de lado a lado por um buraco. Aquele furo é um caldeirão, irmão dos que você vê no Serrano, e só poderia se formar com a lâmina de rocha deitada no leito do rio. Uma enchente remota a arrancou dali e a atirou sobre as outras pedras, onde ela vai permanecer até que outra cheia maior consiga empurrá-la para baixo. O poço existe pelo mesmo motivo, porque sem a força periódica das enchentes já teria sido soterrado por areia e cascalho.

No caminho de volta, no segundo ponto de apoio, você pode sentar em lajes de siltito para tomar água de coco. Essa rocha começou como lama nas margens de um mar antigo, que Krug chama de Mar Caboclo, e guarda marcas das primeiras formas de vida da beira-mar, na forma de pequenos túneis escavados pelos primeiros bichos.

A volta para Lençóis

Quem deixou o carro no estacionamento retorna pelo mesmo caminho, sobre as rochas, até o Ribeirão de Baixo. Quem veio a pé costuma fechar circuito pela trilha do próprio Ribeirão do Meio, em travessia simples por floresta em recuperação, com saída no Largo do Rosário, depois da Rua dos Negros.

Existe ainda uma terceira volta, mais interessante e mais exigente, que desce o rio por cerca de 1 quilômetro até a foz com o Rio São José, no Ribeirão de Baixo. O trecho obriga a contornar a parede de uma pequena garganta ou a nadar um pedaço curto perto da desembocadura, passagens tranquilas para adulto em boa forma, embora desaconselhadas em tempo chuvoso e com crianças pequenas no grupo. Do poço do Ribeirão de Baixo, na saída da serra, uma trilha pela margem direita alcança a estrada carroçável dos garimpeiros, e Lençóis fica a 3 quilômetros à esquerda. O programa rende mais no fim da tarde, sem sol a pino.

Quanto custa e se precisa de condutor

Não há bilheteria nem portaria no acesso ao Ribeirão do Meio, e a trilha é simples o bastante para você percorrer sozinho. Seu gasto, se houver, será com o condutor local ou com o pacote da agência, que em geral inclui seguro de acidentes. Como preços e condições de acesso mudam de temporada para temporada, confirme os valores em Lençóis antes de sair, e na época de chuva pergunte também pelo volume do rio.

Fontes: livros Um Guia para a Chapada Diamantina, de Roy Funch; Lençóis: conhecendo seus passeios, de Luiz Krug.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Para uma melhor experiência dentro do iChapada Diamantina pedimos que use o Google Chrome.

Use um dos seguintes navegadores.