Os oceanos sobem e engolem os continentes, um a um. Quando a água enfim se aquieta sobre o mundo submerso, resta um só pedaço de terra firme acima da linha do mar: a Chapada Diamantina. A cena tem cara de filme catástrofe, mas há quem a leve a sério a ponto de comprar terras na serra baiana à espera do fim. Jimmy Page, o guitarrista do Led Zeppelin, tem três casas em Lençóis, e a explicação que corre entre místicos, roqueiros e leitores de esoterismo não passa pela vista das montanhas: eles apostam que a região vai sobrar quando o resto do planeta afundar. A ideia reaparece em livros de misticismo, em profecias datadas e até no cinema, e vale conhecer de onde vem, nem que seja pelo prazer de arrumar as malas com um argumento a mais.
O que a Cabala tem a ver com a Chapada
Boa parte dessa crença nasce na Cabala, conhecimento esotérico ligado ao misticismo judaico. A palavra vem do hebraico e significa receber. Não se trata exatamente de uma religião, e sim de um conjunto de tradições que, nas versões mais ocidentalizadas, reúne astrologia, numerologia, estudo de textos bíblicos, contemplação da Árvore da Vida e a entoação dos nomes de Deus. Entre seus temas está também a convicção de que o planeta tem prazo de validade. O estudioso israelense Yair Alon resume esse clima no livro A cabalá e o fim dos tempos: “A tradição cabalística sempre afirmou que o mundo como conhecemos tem uma história bem definida, com começo, meio e fim”. Dessa premissa saem especulações sobre onde ficariam os lugares poupados, e é aí que a Chapada Diamantina entra na conversa.
A ilha que vai sobrar quando os oceanos subirem
No livro Jimmy Page no Brasil, o jornalista e músico Leandro Souto Maior recolheu depoimentos que ligam nomes célebres à face oculta do judaísmo. Segundo ele, artistas como Madonna e integrantes do Led Zeppelin teriam investido em terras na região movidos pela mesma aposta. Uma passagem sintetiza o raciocínio: “Segundo a Cabala, a Chapada Diamantina é a única terra que vai sobrar quando subirem os oceanos, vai ficar uma ilha lá, é isso que diz”. As três casas de Jimmy Page no Alto do Cajueiro dão corpo à lenda. Os imóveis ficam sob a guarda de corretores e podem ser alugados por turistas, embora disponibilidade e valores mudem de temporada para temporada, então confirme antes de sonhar com a diária.
O nome Chapada Diamantina escondido na Torá
A conversa fica mais estranha quando chega ao chamado Código da Bíblia. Na década de 1990, o matemático israelense Eliyahu Rips afirmou ter achado mensagens cifradas na Torá, e o assunto ganhou o mundo com O Código da Bíblia: profecias ocultas no Antigo Testamento, do jornalista Michael Drosnin. A tese sustenta que o texto bíblico em hebraico esconderia eventos como as duas grandes guerras, o Holocausto e o assassinato dos irmãos Kennedy, dispostos em sequências de letras na horizontal, na diagonal e na transversal, feito um caça-palavras. Por curiosidade, rodamos o mesmo tipo de programa, e o nome Chapada Diamantina despontou camuflado ao longo do Pentateuco, cercado de versículos que falam de fome, de guerra e da conquista de uma terra prometida. Antes que você venda a casa e se mude para Lençóis, um aviso honesto: esse método localiza quase qualquer palavra num texto suficientemente longo, e é justamente por isso que ele diverte tanto.
O apocalipse que tinha data marcada: 2012
A serra também frequenta as profecias que marcaram o fim do mundo para 2012. Patrick Geryl, autor de O Código de Órion e Como sobreviver a 2012, listou as características dos lugares seguros para o grande cataclismo, e várias delas batem com o relevo daqui. O próprio Geryl pretendia se refugiar nas montanhas Drakensberg, na África do Sul, que guardam um ar de parentesco com a Chapada. O filme 2012, aliás, mostra justamente montanhas sendo engolidas pela água, o pesadelo que essas teorias tentam driblar.
Chapada e Drakensberg, parentes distantes
A comparação com a Drakensberg não é gratuita. As duas regiões têm platôs altíssimos, vales fundos e relevos escarpados; são áreas de conservação com flora e fauna raras; e pesam no abastecimento de água de seus países. Em ambas você encontra trilhas exigentes, cachoeiras enormes, grutas, cânions e um imaginário espiritual grudado nas montanhas. Não à toa, as duas viraram destino de quem procura natureza e aventura no mundo inteiro.
Quando a ficção também aposta na serra
A literatura embarcou na esperança. Em 2010, o escritor Luiz Afonso lançou Bye, Bye, Babilônia, sobre um personagem que, atormentado por pesadelos de catástrofes ambientais, larga Salvador e vai se exilar no Vale do Cercado, onde uma comunidade holística aguarda a salvação. No decorrer da trama, os moradores acabam resgatados por uma nave extraterrestre, num desfecho que só mesmo a Chapada para inspirar.
Coincidência, marketing imobiliário ou sinal dos céus, a soma dá no mesmo endereço. Se um dia a notícia do fim do mundo bater à sua porta, você já sabe para onde correr, e a vista, convenhamos, ajuda a esperar o apocalipse com paciência.
Fontes: livros A cabalá e o fim dos tempos, de Yair Alon; Jimmy Page no Brasil, de Leandro Souto Maior; O Código da Bíblia: profecias ocultas no Antigo Testamento, de Michael Drosnin; O Código de Órion e Como sobreviver a 2012, de Patrick Geryl; Bye, Bye, Babilônia, de Luiz Afonso; filme 2012.
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