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A história do Vale do Capão

Antes de hippies, turistas e terapeutas, o vilarejo de Caeté-Açu serviu de morada para coronéis, garimpeiros e povos indígenas

Se uma jovem bruxa chegasse hoje ao Vale do Capão e tentasse ler o passado do vilarejo nos oráculos, o tarô talvez respondesse com quatro cartas. A primeira seria a Roda da Fortuna, que girou o café da roça até um dos melhores do mundo e ainda ecoa nas velhas rodas d’água do beneficiamento. Depois viria O Imperador, o coronel de mão firme, senhor da região por décadas. Então A Torre, o desabamento que esvaziou as casas e empurrou famílias inteiras rumo a outros estados. Por fim, O Eremita, andarilho de lanterna acesa em busca do silêncio das serras. Essa é a trajetória do vale que atrai místicos e visitantes do mundo inteiro. E é ela que você confere a seguir.

Do mato virgem à Estrada Real

As serras e cachoeiras já moldavam a região quando ali viviam apenas os indígenas cariris, povo originário do lugar. A ocupação europeia chegou pela lógica colonial: Portugal dividiu o Brasil em capitanias hereditárias e, dentro delas, em sesmarias, as faixas de terra entregues a homens de confiança da Coroa. O trecho que hoje corresponde ao Capão coube a Francisco Medrado, morador de Mucugê, a cidade mais antiga da Chapada.

No século 18, a Coroa portuguesa abriu a Estrada Real para escoar a mineração e movimentar a região. A obra derrubou árvores seculares e trouxe tropeiros, caravanas e cavaleiros, os primeiros a batizar o lugar de Capão Grande. Aos poucos, o vaivém de viajantes tirou o vilarejo do isolamento. Por volta de 1818, novos moradores se fixaram por ali: plantavam o próprio alimento e mantinham pequenas oficinas de produtos naturais.

Trecho da Estrada Real, o caminho que interligava centros de mineração na Bahia. Foto: Lucas da Chapada

O café dos Cathalá

Por volta de 1860, o povoado recebeu a família Cathalá, de origem francesa. Um conflito em Minas Gerais tinha forçado seus integrantes a deixar o estado, e a viagem pela província da Bahia, ao longo da Estrada Real, terminou no Capão Grande. Nas terras novas, os Cathalá plantaram café em larga escala. Segundo Zenilda Pina, o produto chegou a figurar entre os melhores do mundo. Pedro Cathalá, um dos membros da família, aprendeu a usar as ervas locais como remédio e salvou muita gente picada por cobras e outros animais peçonhentos.

O exemplo dos Cathalá puxou outras famílias para a lavoura, e o Capão virou terra de café, com 200 mil pés plantados nos arredores. Daquelas rodas d’água que descascavam os grãos veio o nome de uma das quedas mais conhecidas do vale, a Cachoeira das Rodas.

Membros da família Cathalá. Foto: reprodução/Zenilda Pina

Diamantes, comércio e o coronel

Na mesma época, garimpeiros encontraram diamantes nas serras do Capão e passaram a explorá-las. O impacto, porém, ficou aquém do que se viu em outros pontos da Chapada Diamantina: o garimpo deixou apenas vestígios, sem as marcas duras que outros municípios carregam. Entre o brilho das pedras e a fartura do café, o povoado atraiu comerciantes, que abriram lojas de tecido, farmácias e armazéns. Ganhou até uma subdelegacia e abrigou o coronel Lídio Francisco Bello, nome de peso nas Lavras Diamantinas. Contam que, ao completar 50 anos de mando, o coronel promoveu a maior festa da história do lugar.

A rixa que esvaziou o Capão

A hegemonia de Lídio encontrou resistência em Simplício Rocha, cafeicultor, dono de farmácia e conhecedor de ervas. Em 1941, uma discussão com aliados de Simplício tirou o coronel do sério, e ele deixou o Capão rumo a Palmeiras. Livre do rival no território, Simplício filiou-se ao PSD e assumiu a liderança local.

O reencontro veio na política. Em 1947, Palmeiras realizou sua primeira eleição municipal, e os dois voltaram a se enfrentar, agora sob as siglas rivais do PSD e da UDN. Depois de brigas, trocas de lado e derrotas, Simplício também abandonou o Capão e se mudou para o Mato Grosso em 1964. O vilarejo mergulhou numa crise: perdeu a subdelegacia e viu boa parte dos moradores partir rumo a São Paulo e ao próprio Mato Grosso, atrás de melhor sorte.

Caeté-Açu e a virada mística

Ainda em meio à turbulência, o povoado ganhou status oficial. Em 30 de dezembro de 1953, a Lei 628 o transformou em distrito e o rebatizou de Caeté-Açu, do tupi “grande mata virgem”. Pouco depois, em 1962, a Cachoeira da Fumaça entrou no roteiro dos visitantes e passou a atrair curiosos de longe, com seus 340 metros de altura.

A grande virada, porém, veio de fora. Entre as décadas de 1960 e 1970, jovens que fugiam das amarras do Regime Militar desembarcaram no Capão em busca de outro modo de vida. Massagistas, pesquisadores, terapeutas e simpatizantes do movimento hippie foram redesenhando o perfil da vila. Em 1984 surgiu a Lothlorien, a primeira comunidade alternativa do lugar, com nome tirado da terra dos elfos de Senhor dos Anéis.

Os cariris, primeiros habitantes daquele chão, não saíram da história. Todos os anos, remanescentes do povo voltam à vila em seus rituais e reencontram a ancestralidade que resistiu a coronéis, garimpeiros e viajantes. O Capão que você visita hoje guarda todas essas passagens.

Fontes: livros Encontro com a Villa Bella das Palmeiras, da memorialista Zenilda Pina; e Histórias de Antigamente: cultura e memória nas Lavras Diamantinas, da historiadora Sílvia Côrrea de Codes.

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