Visitar cemitério raramente entra no roteiro de quem viaja pelo Brasil. Em Paris, o Père-Lachaise contraria essa lógica e recebe multidões que vão ver os túmulos de Allan Kardec, Marcel Proust, Chopin e Oscar Wilde. Por aqui, conforme a arquiteta e mestra em Memória Social Renata Souza Nogueira, o interesse por visitar necrópoles quase não existe, e pouco mais de uma dezena de monumentos funerários carrega o título de patrimônio nacional concedido pelo IPHAN.
Um desses raros monumentos ocupa uma encosta da Chapada Diamantina e atrai visitantes há décadas.
Um patrimônio tombado em Mucugê
Construído entre 1854 e 1886 e tombado em 1980, o Cemitério Santa Isabel ocupa uma encosta da Serra do Sincorá, em Mucugê, a cerca de 450 quilômetros de Salvador. Paulo Ormindo, arquiteto do IPHAN que conduziu o tombamento de cidades da Chapada, resumiu o valor do lugar ainda na década de 1970: para ele, o cemitério e o entorno natural formam o elemento mais interessante da cidade.
O nome oficial homenageia Santa Isabel, mas quase ninguém o chama assim. Para os visitantes, ali é o Cemitério Bizantino, apelido que nasceu da semelhança entre os túmulos brancos e as igrejas europeias. Como e quando o apelido pegou, ninguém sabe ao certo.

De onde veio o nome “bizantino”
As explicações se dividem. Há quem credite a alcunha aos turcos que chegaram a Mucugê para comprar diamantes. Outros apontam para arquitetos estrangeiros, contratados pelos senhores do garimpo, que teriam se inspirado nas cúpulas do Império Bizantino.
Para o IPHAN e para pesquisadores como o mestre em História Carolino Brito, porém, o estilo verdadeiro não tem nada de bizantino: chama-se vernacular. A arquitetura vernacular se apoia nos elementos da própria região. Um documento do IPHAN compara os mausoléus às locas, as casas que os garimpeiros erguiam dentro das rochas. Os túmulos, nesse sentido, repetem em pedra caiada o mesmo gesto de morar na serra.
Arquitetura que imita a serra
O que prende o olhar é o encaixe entre os túmulos e a encosta rochosa da Serra do Sincorá. As construções fúnebres sobem de tal forma que parecem prolongamentos da própria pedra. No parecer que a arquiteta Dora Alcântara escreveu na época do tombamento, as sepulturas lembram arcos e campanários de igrejas, mas também as pontas das elevações que cercam a cidade. O cemitério funciona como uma maquete de Mucugê e de suas serras.
O contraste ajuda a compor a cena: o verde da serra ao fundo, o branco dos jazigos à frente e, entre um túmulo e outro, plantas nativas como mandacarus, sempre-vivas, samambaias e olhos-de-sogra.
Três sentidos para um mesmo lugar
Carolino Brito enxerga três funções no Cemitério Bizantino. A primeira, a mais evidente, cabe a qualquer cemitério: abrigar os mortos. A segunda liga o lugar a um ponto de contato entre o mundo material e o espiritual. A terceira o reconhece como objeto histórico e turístico. No mundo inteiro, só um outro cemitério se aproxima desse estilo, o de Parma, na Itália.
A fama que veio pela televisão
O empurrão popular veio em 1992, quando o cemitério apareceu em Pedra sobre Pedra, da Rede Globo. Logo no primeiro capítulo, Jerônimo (Felipe Camargo), marido de Pilar Batista (Cláudia Scher/Renata Sorrah), cai do cavalo depois de ter a sela sabotada, morre e vai parar no cemitério de Mucugê, que conserva o nome real dentro da ficção. Foram poucos minutos de cena, o suficiente, segundo Carolino Brito, para levar a imagem da necrópole ao país inteiro.

Como visitar
O Cemitério Bizantino fica à margem da rodovia, na saída de Mucugê em direção a Ibicoara, com acesso sinalizado. A entrada costuma ser gratuita e a visitação, aberta o ano inteiro, mas confirme horários e condições de acesso antes de viajar, já que esse tipo de informação muda. Quem inclui Mucugê no roteiro consegue conhecer o cemitério e o vizinho Projeto Sempre Viva no mesmo dia.
Fontes: dissertação Ruínas sobre a Serra do Sincorá: a patrimonialização de Mucugê e do Cemitério Santa Isabel (1970-2012), de Carolino Marcelo de Sousa Brito (UFRN, 2013); dissertação Quando um cemitério é patrimônio cultural, de Renata de Souza Nogueira (UNIRIO, 2013); e registros e pareceres do processo de tombamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), atribuídos aos arquitetos Paulo Ormindo e Dora Alcântara.
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