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Campos de São João: a história do povoado a 5 minutos do Morro do Pai Inácio

O lugarejo que juntou garimpeiro, jagunço e coronel resiste com igreja, doce de tacho e uma botija que ninguém achou
Igreja de Campos de São João cercada por casas, vegetação e serras da Chapada Diamantina
A igreja construída para o padroeiro local. Foto: Lucas da Chapada

Quem sobe o Morro do Pai Inácio costuma olhar apenas para o horizonte. Do alto, a Chapada Diamantina se abre em paredões e vales, e a paisagem parece vazia de gente.

Mas não é. A cinco minutos de carro dali, à beira da BR-242, existe um povoado de cerca de 800 moradores chamado Campos de São João, que já teve mais de 5 mil.

Nesse número que encolheu cabem coisas bem específicas: um pote de barro cheio de ouro que ninguém achou até hoje, uma moça que se nomeou delegada para conseguir construir uma igreja e uma frase mal interpretada que acabou mudando o traçado de uma rodovia federal.

E tudo isso começou porque o gado precisava beber água.

Como o povoado surgiu

Ainda no século 18, quando a Coroa portuguesa quis costurar os centros de mineração e pecuária espalhados pela colônia, o vice-rei Dom Vasco Fernandes César de Menezes determinou a abertura da Estrada Real, cujo traçado atravessou a Chapada Diamantina de ponta a ponta e uniu lugares tão distantes entre si quanto Rio de Contas e Jacobina.

Ora, bem no meio desse caminho ficavam os rios Cochó e São João.

Água farta, pasto alto, sombra. Para o boiadeiro que vinha empurrando rebanho havia dias, aquilo resolvia o problema do fim da tarde: ele parava, o gado bebia, todo mundo dormia e, no dia seguinte, a viagem continuava. Assim, de parada em parada, o pouso foi virando lugar de permanência e, por fim, acabou virando povoado.

O garimpo de diamantes

Os garimpeiros chegaram cedo, na esteira dessa mesma estrada. E de tudo que se conta daquele tempo, o exagero mais bonito é o de que havia tanta pedra por ali que dava para achar diamante no leito do rio São João e até preso entre raízes de planta.

Como memória de garimpo costuma crescer com os anos, essa história tem cara de ter crescido bastante. Ainda assim, alguma coisa devia haver de verdade, tanto que gente de fora veio atrás.

O polo de carne da região

Ao longo do século 19, famílias portuguesas foram ocupando a área e dividindo-a com os garimpeiros, de modo que as fazendas se multiplicaram. Entre o fim daquele século e o começo do seguinte, Campos de São João já não era pouso de tropeiro nem arraial de garimpo, e sim o açougue da região, com cerca de 100 bois abatidos por semana para abastecer Lençóis, Palmeiras e Andaraí.

O maior proprietário do povoado, nesse período, chamava-se José Inocêncio Guimarães.

Os jagunços de Horácio de Matos

Só que havia também o outro ofício.

Na primeira metade do século 20, parte dos garimpeiros locais trabalhava como jagunço do coronel Horácio de Matos, e dois nomes atravessaram o tempo. O primeiro é Leolino Canguçu, que enfrentou o Barão do Grão Mogol num episódio que terminou com a saída do nobre da região.

Azulão, por sua vez, era de outro tipo: vivia de extorquir quem lhe desse na telha e, como quase todo mundo pagava calado, foi ficando confiante, até o dia em que escolheu a pessoa errada. Ao cobrar dinheiro do coronel Heliodoro, ouviu que ali não se devia nada a ninguém, já que o patrão da casa era o próprio Horácio de Matos.

Américo Chagas e as bênçãos da Rua Nova

Nem todo mundo que nasceu no povoado, porém, ficou conhecido por bala.

Américo Chagas nasceu ali em 1905 e virou médico, lembrado tanto pela inteligência quanto pelo atendimento a quem não tinha como pagar e pelos textos que escreveu sobre a própria terra. Hoje um hospital em Iraquara leva o nome dele.

Já o irmão, Mário Chagas, deixou registrado um costume da Rua Nova: mais de dez senhoras se sentavam à porta de casa no fim do dia, e nenhuma criança passava sem pedir a bênção a cada uma delas, uma por uma, até o fim da rua. Mário confessou que às vezes cansava.

A botija enterrada

O pai dos dois, Tibério Chagas, era dono de um empório de secos e molhados e vivia com medo de saque, o que naquele contexto não era exatamente paranoia. Fez então o que muita gente fazia: juntou ouro e prata dentro de um pote de barro e enterrou tudo no chão da propriedade conhecida como “a Chácara”.

Só que depois esqueceu onde.

E, segundo a tradição local, a botija continua lá até hoje.

A igreja construída com dinheiro de fiança

Faltava dinheiro para erguer a igreja de São João Batista, padroeiro do povoado, e foi aí que uma moça chamada Davina Cabogás teve a ideia.

Ela mandou construir um cômodo resistente, feito de varas, e passou a usá-lo como cadeia. Autodeclarada delegada, prendia os tropeiros mais inexperientes que cruzavam o povoado e cobrava fiança para soltá-los, explicando que o dinheiro tinha um bom destino.

E tinha mesmo, porque foi com ele que a capela subiu, entre 1914 e 1918.

Produção artesanal dos Doces D’Afra sendo cortada em uma forma
A igreja construída para o padroeiro local. Foto: Lucas da Chapada

Por que a BR-242 não passa dentro de Campos de São João

Em 1957, quando a rodovia estava sendo traçada, o projeto inicial previa que ela cortasse o povoado.

O fazendeiro Joaquim Pinto, que representava os moradores, conversou então com um funcionário da construtora e disse que, se a estrada passasse por dentro, muita gente ia morrer. O funcionário ouviu aquilo como ameaça e levou a mensagem adiante.

Só mais tarde se entendeu que Joaquim falava de atropelamento. De todo modo, a rodovia acabou desviada, e hoje é justamente ela que leva o visitante até o povoado em poucos minutos, sem partir a rua principal ao meio.

Serenatas, chita e fogueira de ramo

Passada a era dos coronéis, o povoado ficou conhecido pelo oposto do que tinha sido: pelas serenatas em noite de lua cheia e pelos bailes iluminados a candeeiro, com as mulheres vestidas de chita.

E pelo São João, evidentemente.

A tradição junina mais curiosa de lá é a fogueira de ramo, também chamada de fogueira em pé. Fincam-se troncos finos de árvore, amarram-se frutas e doces nos galhos e deixa-se o fogo trabalhar a base, até que a estrutura desabe e a molecada corra para disputar o que estava pendurado.

Os doces D’Afra

O doce mais famoso do povoado, no entanto, não vem do galho da fogueira: vem do tacho.

Feitos há gerações pela mesma família, na própria casa, em tacho e fogão a lenha, os doces D’Afra têm hoje dona Janete à frente da produção. A receita é curta e o processo é lento, e é aí que mora a diferença em relação ao doce de prateleira: fruta, açúcar e tempo de fogo.

Como não há loja, vitrine nem placa na estrada, vende-se na casa mesmo, para quem chega.

Produção artesanal dos Doces D’Afra sendo cortada em uma forma
Produção dos Doces D’Afra. Foto: Lucas da Chapada

O que ver hoje em Campos de São João

Não existe centro de visitantes, portaria nem ingresso. O que existe é isto:

  • A igreja de São João Batista, construída entre 1914 e 1918 com o dinheiro das fianças de Davina.
  • O rio São João, o mesmo que fez tropeiro parar e garimpeiro procurar pedra.
  • A Rua Nova, onde as senhoras se sentavam para receber a bênção das crianças.
  • Os doces D’Afra, vendidos na casa onde são feitos.
  • Os moradores, que contam as histórias deste texto com detalhes diferentes dos que você acabou de ler. Vale ouvir as duas versões.

Como fica a cinco minutos do Morro do Pai Inácio, à beira da BR-242, aquela mesma estrada que quase passou por dentro dele, o povoado encaixa bem no fim da tarde, depois do mirante. Para quem quiser pernoitar no lugarejo, pode se hospedar no Camping Caminho dos Cristais ou nos chalés Canto do Sabiá.

Dos 5 mil moradores de outrora sobraram 800. Mas a botija de Tibério Chagas, se a história for verdadeira, continua enterrada em algum lugar por ali.

Fontes: livros Campos de São João: um pedacinho do Céu, de Renato Luís Bandeira; Encontro com a Vila Bela das Palmeiras, de Zenilda Pina; artigo sobre o patrimônio cultural da região, de Paula Zanardi (Mestrado em Preservação do Patrimônio Cultural); e relatos de moradores de Campos de São João, colhidos para o canal @lucasdachapada.

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