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O que é o jarê?

Religião que existe só na Chapada Diamantina mistura santos católicos com atabaques e virou recentemente patrimônio cultural do Brasil

Se você leu Torto Arado, o premiado romance de Itamar Vieira Júnior, conheceu Zeca Chapéu Grande. No livro, ele é pai das protagonistas e também cuida da vida espiritual de todo mundo ao redor. O jarê de Zeca, porém, não nasceu na ficção. A religião existe de verdade e só num canto do planeta: a Chapada Diamantina. É tão vivo no mundo real que, em novembro de 2025, o Iphan transformou um de seus terreiros, o Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra, em Lençóis, em Patrimônio Cultural do Brasil. Trata-se do terreiro mais antigo do gênero ainda em atividade.

Surgido no século 19, entre os municípios de Lençóis e Andaraí, o jarê depois se espalhou pelas cidades vizinhas. Até o nome é um enigma: a etimologia é incerta e provavelmente vem do iorubá, com o sentido de “quase cair no solo” ou “cortar através”. Há quem defenda, porém, que seja uma adaptação do termo “njale”, uma cerimônia da Nigéria. Ninguém bate o martelo.

A história do credo se confunde com a do garimpo e com a da diáspora africana. Conforme os relatos orais reunidos pelo antropólogo Gabriel Banaggia no livro As Forças do Jarê, senhoras nagôs vindas de Cachoeira navegaram pelo rio Paraguaçu até Lençóis e levaram para lá seus ritos e objetos sagrados. Esse candomblé de matriz jeje-nagô se encontrou com tradições indígenas e com o catolicismo popular, e o resultado foi uma religião nova.

No auge da corrida pelos diamantes, acreditava-se que o curador podia indicar ao garimpeiro o caminho do “bambúrrio”, a sorte grande de achar a pedra. Para o jarê, o diamante tem vida e dono: esconde-se de quem não merece e se revela a quem o destino escolheu.

A marca dessa mistura está nos caboclos: espíritos de origem indígena cultuados lado a lado com os orixás. A presença deles é tão forte que, com o tempo, quase todas as entidades passaram a ser chamadas de caboclos. Daí o apelido mais conhecido do jarê: candomblé de caboclo.

Parece, mas não é

O.K. O jarê tem semelhanças com o candomblé do litoral, mas não se engane: ele também tem personalidade própria. Os atabaques (apelidados de “couros”) são tocados só com as mãos, sem varetas. A música corre mais rápido, as cantigas são em português (em vez de usar dialetos africanos), a dança tem mais giros e flerta com o samba, e o número de incorporações ao longo de uma festa costuma ser bem maior. O altar também é particular: orixás, caboclos e santos católicos dividem o mesmo espaço, sem disputa de lugar.

As cantigas chamam os caboclos

No jarê não existe festa sem música, e as cantigas têm função prática: é por meio delas que se faz contato com as entidades. Cada uma tem seu repertório, e as cantigas não são compostas por quem frequenta o terreiro. Para os praticantes, elas são “trazidas” pelos próprios caboclos durante a incorporação.

A ordem do canto também tem regra. As entidades são chamadas conforme sua linhagem: primeiro Ogum, depois a Aldeia d’Água (com Marinheiro, Sereia e Iemanjá), em seguida Iansã (ou Santa Bárbara) e Xangô. Vem então a Força da Mata, a linhagem dos caboclos guerreiros e guardiões do terreiro, seguida pelos Nagôs, o “povo velho”. Por fim, já com o dia a clarear, chegam as crianças, representadas por Cosme e Damião. Um levantamento feito pela Associação dos Filhos de Santo do próprio Palácio de Ogum reuniu 457 dessas cantigas no livro e no site Memória das Cantigas do Jarê.

O curador que atravessava o fogo

Quem comandava o pioneiro Palácio de Ogum era Pedro de Laura, lembrado como o maior curador da história recente de Lençóis. Curador é o chefe do terreiro, uma espécie de sacerdote e médico ao mesmo tempo: trata males que escapam à medicina comum, com poderes que, segundo a tradição, vêm dos próprios caboclos. Pedreiro de profissão e mestre de obras dos bons, Pedro comprou o terreno à beira do rio Capivara nos anos 1940 e ali iniciou quase todos os líderes das casas que funcionam na cidade hoje.

As proezas atribuídas a ele renderiam um capítulo à parte. Os filhos-de-santo contam que, quando incorporava sua Iansã, ele atravessava a fogueira do terreiro sem se queimar. Mesmo depois de morrer, segue por perto: os antigos discípulos juram que ele aparece em sonhos.

Hoje o número de casas diminuiu, mas o jarê segue vivo. Em Lençóis, que concentra o maior número de terreiros, é raro encontrar quem nunca tenha tido contato com a religião. E agora, com o reconhecimento do Iphan, essa tradição nascida no sertão da Bahia passou a constar, oficialmente, na história do país inteiro. Haja motivos para os caboclos comemorarem.

Guia de etiqueta: como se portar numa cerimônia de jarê

Foi convidado? Então não vacile.

Antes de chegar. Baixe a voz ao se aproximar do terreiro. Se houver rio ou córrego no caminho, atravesse em silêncio. A água é sagrada. Fique de olho também em panos coloridos amarrados nos troncos e em pentagramas pintados nas pedras: eles avisam que ali começa um espaço protegido.

Na entrada. Vá direto ao caramanchão, a morada dos exus. Não entre. Passe por trás da construção, pare na porta e bata um pé no chão três vezes. É uma saudação.

Em seguida. Vá até a porta do quarto de santo e bata o pé descalço na soleira. É o cumprimento às demais entidades da casa.

Agora sim. Circule à vontade pelo salão. Homens sentam à esquerda, mulheres à direita.

Respeite os limites. Não entre em nenhum outro cômodo. Quintal e cozinha são só para os íntimos.

Na saída. Repita tudo na ordem inversa. O ritual de chegada também é o de despedida.

jarê

FONTES: livros Memória das Cantigas do Jarê, de Paula Zanardi e André Castilho; As Forças do Jarê, do antropólogo Gabriel Banaggia; Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior; site cantigasdojare.com.br; notícia “Iphan aprova tombamento do Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra, em Lençóis (BA)”, no portal gov.br/iphan.

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