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Campos de São João, o povoado que ajudou a moldar a história da Chapada Diamantina

  • 22/12/2025

  • postado por R.

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Localizado a poucos minutos do Morro do Pai Inácio, no município de Palmeiras, o povoado de Campos de São João guarda uma trajetória que contrasta com seu tamanho atual. Embora hoje tenha cerca de oitocentos habitantes, já chegou a concentrar mais de cinco mil pessoas e desempenhou papel relevante no desenvolvimento econômico da Chapada Diamantina.

A ocupação da área teve início no século 18, período em que o vice-rei do Brasil, Dom Vasco Fernandes César de Menezes, determinou a integração de polos de mineração e pecuária por meio da Estrada Real. O traçado cortou a Chapada ao meio, conectando regiões distantes como Rio de Contas e Jacobina.

Nesse percurso, os rios Cochó e São João passaram a funcionar como pontos naturais de parada. A presença de água em abundância e pastagens favoreceu o descanso de tropeiros e boiadeiros, enquanto garimpeiros exploravam o entorno. Relatos da época indicam que a oferta de diamantes era tamanha que as pedras podiam ser encontradas até entre raízes de plantas às margens do rio.

Com o avanço do século 19, portugueses passaram a ocupar a região, dividindo espaço com os exploradores. No intervalo entre o fim desse século e o início do século 20, surgiram fazendas e o povoado consolidou-se como polo de produção de carne. Estima-se que cerca de cem bois fossem abatidos semanalmente para abastecer Lençóis, Palmeiras e Andaraí. Entre os grandes proprietários, destacou-se José Inocêncio Guimarães, dono da maior fazenda local.

O crescimento populacional trouxe movimento econômico e também personagens ligados ao coronelismo. Durante a primeira metade do século 20, Campos de São João abrigou jagunços associados ao coronel Horácio de Matos. Nomes como Leolino Canguçu e Azulão ficaram conhecidos por episódios de confronto e intimidação, comuns em uma região marcada por disputas de poder.

Apesar desse histórico tenso, o povoado também produziu figuras de perfil oposto. Ali nasceu, em 1905, o médico Américo Chagas, reconhecido pelo trabalho social e posteriormente homenageado com um hospital em Iraquara. Seu irmão, Mário Chagas, registrou em textos cenas do cotidiano local, como o hábito das crianças pedirem bênção às senhoras sentadas à frente das casas.

Outro personagem lembrado é Tibério Chagas, pai dos dois, proprietário de um empório de secos e molhados. Temendo saques, decidiu esconder ouro e prata em uma botija de barro enterrada em sua chácara. O local exato jamais foi reencontrado, dando origem a uma lenda que persiste até hoje.

A história do povoado também guarda episódios inusitados, como a construção da igreja dedicada a São João Batista. Sem recursos suficientes, a jovem Davina Cabogás teria improvisado uma cadeia para prender tropeiros inexperientes e cobrar fiança. O dinheiro arrecadado foi utilizado na obra, concluída entre 1914 e 1918.

Na década de 1950, Campos de São João quase foi atravessado pela BR-242. A mudança de rota ocorreu após um mal-entendido envolvendo o fazendeiro Joaquim Pinto, representante local, que alertou para riscos caso a estrada passasse pelo centro do povoado.

Com o tempo, o lugar deixou para trás os conflitos e se consolidou como reduto de tranquilidade. Tornou-se conhecido pelas serenatas em noites de lua cheia, pelos bailes iluminados por candeeiros e pelas festas juninas marcadas pelas tradicionais fogueiras de ramo — elementos que ajudam a explicar por que Campos de São João segue sendo uma peça discreta, mas fundamental, da história da Chapada Diamantina.

BANDEIRA, Renato Luís Sapucaia. Campos de São João: pedacinho do céu. Iraquara: edição do autor, 2023.
PINA, Zenilda. Encontro com a Villa Bella das Palmeiras. Salvador: Secretaria da Cultura e do Turismo, 2005.

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